trasformazione e cambiamento

September 7, 2008

A poesia de outros tempos é morta. No cintilar do prata que agora habita a mão escultural trancada na porta invisível do meu armário, tem-se o mapa para toda uma memória em sépia, perfumada em breves oscilações entre aroma de desodorante e naftalina. As leves pinceladas de outrora conferem um ar melancólico ao toca-discos que chora as notas tênues e já ilegíveis e inatingíveis de uma lúgubre estória.

Retiro alguns livros da última prateleira da segunda porta.

Chuvas de arabescos e palavras e poesias reinauguram o espaço interno em que sobreviveram os escombros dessa face de vida.

E, sem querer, descubro duas pedras distintas entre o ar e o infinito… 

Mudanças requerem tirar o pó e as tralhas do armário. E de lá não saem apenas roupas ou o que guardamos atrás daquelas portas de madeira envelhecida. Saem traças, mariposas, sentimentalismos vários, recordações, poucas e consistentes lágrimas, alguns sorrisos, alguma doce apreciação. Saem também magias e medos, escuro, solidão.

…Começo a enchergar um pequeno feixe de luz por detrás de um estreito labiríno ao passar daquela curva.

Onde dará esta ilusão certeira?

Onde guardar tanta bagagem?

Real X Virtual – a muralha prateada (divagações ao meio-dia)

January 18, 2008

O que fazia naquele princípio de tarde era, como sempre, ler. Parei por acaso, adormecendo entre as páginas enegrecidas pelo tempo e eternizadas pelas palavras do Prisioneiro do Presidente*. Viajei para lugares de cujos nomes não me lembro e recordei-me de sonhos já vivenciados quando minha mãe veio chamar-me para o almoço. Eu estava sentada em minha cama, voltando de uma corriqueira ida ao espelho para encenar uma coisa qualquer que viera à cabeça. Reparei que, ao pronunciar a palavra FELICIDADE, meus olhos transformaram-se, tornando a íris dos famosos olhos castanhos em um tom prata espelhado que, dilatada, refletia toda a imagem mostrada pelo espelho. Voltei à cama, expondo a minha progenitora a limpidez de meus novos olhos. Concomitante ao não entendimento dela -   e a falta de um papel qualquer – escrevi em minha perna os versos que a inspiração me trouxe em sua célere passagem pelo quarto (os mesmos de cuja autenticidade não me recordo). Enquanto isso, minha mãe fechava as cortinas ao soar de meu nome por um conluiado dessas minhas viagens oníricas. Ela descortinava a conversa que o jovem insistia em iniciar comigo e eu gritava “Faz um rasgo na cortina para que eu possa vê-lo, mamãe!”. Ela balbuciava  algo sobre o almoço e pedia para que eu me apressasse. Rompi a barreira feita no quarto contra a claridade e descobri que aquele menino, de cabelos curtos e alaranjados, queria conversar, sair um pouco e comprar cuecas – desde que voltáramos da última viagem ele estava sem. Respondi que depois do almoço resolveríamos o caso.

A grafite não ajuda minha ineficiência com as palavras. As imagens estão congeladas aqui dentro, refletindo-se no prata daquele olhar virtual. Mamãe continua reclamando de minha demora acrescendo, agora, que a comida já está ficando fria (o que mesmo assim seria um banquete para Skutina…). O livro encontra-se jogado no chão, perdi a página, ponho-o sob a cama e rumo à cozinha. Não vou mais contradizê-la.

* Prisioneiro do Presidente->livro de autoria de Vladmir Skutina 

Parágrafo antagonicamente rotineiro – o que uns óculos novos não fazem

É quinta-feira. Até aqui, nada além de uma oração nominal – e nada além de tédio, a cidade começa a dar sinais de recuperação da população e a rotina friburguense não faz mais que proporcionar algumas crônicas. Acordei cedo, vesti minha malha de Aruba (em tons azul berrante e vermelho), alonguei meus músculos e sai com minha mãe pelo bulevar deste modesto burgo fluminense em direção a uma das 7 maravilhas arquitetônicas da cidade. Cerca de meia-hora de caminhada, meia-hora de corrida, suor à parte – claro. Retornamos a casa. Algumas centenas de abdominais, chá-verde e uma ida a Unimed, trocar o cartão que pela segunda vez acusara erro de leitura (Nada feito, a burocracia do plano de saúde me deixaria sem o mesmo por uns trinta dias). Eu e meu irmão gêmeo acompanhávamos minha mãe ao supermercado e pelo caminho pude constatar que as ruas tornavam-se diferentes. O mundo, visto pela óptica dégradé de meus óculos novos, alegrava-se naquela manhã de rotina. Visto por três nuanças distintas – o escuro, o mais claro e o claríssimo natural (ofuscações solares sem escudo protetor para olhos acostumados ao reflexo e efeito olho-de-tigre* matinais) – o caminho não era tão ruim, ainda que a cópia de sexo invertido continuasse com suas brincadeiras sem graça por todo o percurso.

 

Pela primeira vez em muito tempo a cidade tornou-se atraente.

 

 

 

                        

 

 

 

*Olho-de-tigre-> “gema mineral de estrutura fibrosa e cor predominantemente negra. É manchada pelo óxido de ferro, que lhe confere as peculiares “listras de tigre”.” (Coleção Tesouros da Natureza – Minerais e Pedras Preciosas)

 

O “efeito olho-de-tigre” aqui mencionado pela autora trata-se da modificação de uma cor escura para uma mais clara, o que ocorre com o olho da própria escritora ao expor-se ao sol.

 

November 10, 2007

De repente, daquele esdrúxulo modo, ela o encontrara.                                

 

Acordara em cima da hora do expediente, chegaria mais um dia atrasada (droga! esta porra que não desperta!). Levantara com o pé-esquerdo, sempre o fazia em virtude da posição da cama naquela câmara minuciosamente desorganizada. Ajeitara o cabelo (que bagaço, tenho de marcar uma hora no salão…), jogara água no rosto e atirara todas as bujingangas que encontrara sobre a mesa de cabeceira dentro da bolsa (pronto, assim não me esqueço de nada). Pé ante pé, para não acordar a dona do apartameno no qual alugara o quarto dos fundos, passara na sala para pegar um objeto qualquer - talvez um livro para distraí-la no longo percurso que faria de ônibus - e seguira para a cozinha, onde um pão dormido a aguardava, recheado por uma fatia de queijo minas beirando o prazo de validade. Enfim, após escovar os dentes, descera os cinco lances de escada do antigo prédio e rumara para o ponto de ônibus, disposto três quadras após o edifício.

Vestia uma camiseta branca, uma calça de malha escura e sandálias douradas, combinando com a bolsa imensa de mesma cor (última moda, liquidação, mô sorte!). O cabelo liso vinha envolto em um cóque despojado, que assentava perfeitamente com a passada larga e voraz a qual recorria. Seu ônibus estava atrasado, como enformara uma velha senhora sentada no ponto, que fazia crochê e expunha as peças já prontas, tentando içar algum lucro. (ótimo! usarei isso como desculpa!) Ajeitou a camiseta, levou as mãos ao rosto docemente - como que para disfarçar a limpeza do insipiente suor de seu frontispício - e punha-se um pouco a frente do ponto, na tentativa de visualizar melhor a chegada de seu transporte. Nisso, repara em um garoto (deve ter por volta de uns 22, pelos trajes é estudante, com certeza) que posiciona-se mais ou menos ao seu lado (eu, hein?! Hã, este posto é meu, nem venha tirar minha visão…!). Dez minutos. Nada. A orla da praia hipnotizava-a com o som da maresia matinal e por isso, quase não avistara o ônibus. Em questão de segundos esticou o braço direito em sinal de "PARE ESTE ÔNIBUS!" e correu para alcançar a porta, a quantidade de novos passageiros fazia vista de ser grande.

                              

O tal menino postara-se na fila, a sua frente (mas que raios! Chego antes deste moleque e olha só!). Enquanto apanhava as moedas perdidas dentro daquela imensidão de tecidos e objetos emaranhados, o rapaz deu um passo à direita e, como que adivinhando o motivo daquela cara fechada, fez com mãos e lábios movimentos de "pode passar". Ela então abaixou a cabeça e timidamente balbuciou um leve "obrigada".

Passou pela roleta, sentou-se próxima ao trocador, no lado esquerdo, corredor. Restavam apenas dois lugares no veículo, um a sua direita, janela, e um nos fundos. O rapaz sentara-se próximo a si.

Sentiu então brotar algo dentro de si própria, algo irradiante e embriagador. Olhou para o lado, até agora não notara seu rosto e então, perdera a respiração.

Não foi preciso livro, nem outra coisa qualquer para distraí-la naquele percurso. De repente, daquele esdrúxulo modo, ela o encontrara.

Não tem água por perto, mas inspiração não falta

August 28, 2007

"Bonitos e burros".

                                                         Filme que vale a pena conferir. Em francês.

Assim, sem querer, esses dois adjetivos vieram sumariamente resumir a minha mais intrínseca escolha de carreira. Lá dentro, bem na passagem ventricular de meu ser confuso, eu já descobri o que realmente quero. Na verdade, foi epifania de sábado à noite, ao som de Beauty and the Beast com um dos maestros mais bem dotados que já conheci (e que, detalhe inútil, parece ser um personagem da Disney®). Estava lá, esperando a deixa e o movimento anterior para soltar o gogó - agora com novas técnicas de afinação - quando as lágrimas vieram ao frontispício e o tremor a todo o corpo. Foi num piscar de olhos. Não, não. Muito mais rápido. Na velocidade da luz.

Hoje Marte apareceria no céu, não fossem as nuvens. Mas melhor tê-las até quarta e deixar o céu de quinta em diante radiante. O motivo? Hum…

————————————–

- conversa cortada leva a desvarios e sogni-

 "como é ai onde vc ta ficando?mesmo com um monte de garotas é como vc estivesse sozinha?"

"é…Completamente só…Num quarto grande e escuro, como o de Jacarepaguá, só que em Niterói"

"…e sem avioes"

"Eu queria que vc tivesse aqui… Aí, os dois poderiam estar de pijama passeando na praia… rsrs É, sem aviões…"

                                                          - - - - - - - - - 

Duas figuras aparecem sob a sombra da madrugada, escondidas por entre trajes de dormir. Caminham pela praia, de mãos dadas. Ouvem as ondas beijarem a areia e a imitam; correm um do outro, a distância máxima de um palmo. 

Ele pilota aviões. Ela quer ser atriz, mas possui traços arquitetônicos e jornalísticos. Três em um? Não sabe o que quer; ou sabe, vai saber. A única coisa de que tem certeza é que as horas passam rápido demais e a briga contra o tempo é uma das máximas da humanidade.

Filosofia? Um pouco, qual o problema?! Minha alma espande-se em arabescos e eu tropeço em sofismas, falácias e redundâncias contínuas. Tento enganar meu eu para driblar a angústia da adaptação. Às vezes consigo, às vezes não… E vai saindo essa rima fajuta no meio de meu rascunho cibernético.Hoje, ao madrugar e viajar, pensei  que a semana seria diferente. (Tá sendo). Ao chegar à ponte (fluxo intenso), eu e meu novo grupo de aventuras deparamo-nos com um grande acúmulo de fumaça - fresca e gris -  e um simbólico urubu no pináculo de uma torre em frente ao Cemitéro do Rio de Janeiro. Prenúncio de azar? Até aquela hora saldávamos a sorte, brincando com o simpático número telefônico dos jazigos, à la criança-esperança, por ter deixado-nos sãs e salvos frente a iminência de um pneu furado e um motorista cheio de histórias mais que bizarras (aderindo o linguajar carioca). Com uma hora e alguns minutos de atraso, chegamos a aula de CFA.

- Explicação do título - Tomar banho antes de escrever (ou qualquer outro exercício que precise da chamada inspiração) pode trazer benefícios. Em contato com a pele, a água muda o pólo magnético das partículas que a constituem, fazendo com que haja  um caminho "mais rápido" do oxigênio ao cérebro. A maior oxigenação do mesmo acalma e energiza as células, dando-nos maior estímulo para realizar os trabalhos.

(:Vedervi-> "Um lugar na platéia"

Racconti del PAN - I Grandi e l’appuntamento incredibile

July 28, 2007

A rotina Panamericana mudou o Rio e o meu eu interior. Digamos de imediato que estou mais sagaz. Minto (ou ouso aqui um termo de muita modéstia); estou virando carioca, e das ‘’da gema". Numa dessas minhas aventuras pela Barra da Tijuca, pensando em meus grandes e saudosos amigos, deparei-me com um real e palpável encontro de Grandes:por detrás do Barra Shopping, ali, onde os estrangeiros são despachados (em termos PAN, de frente a UAC), lançando-se dos mais incríveis sinais para fazerem-se entender no meio de incapacitados brasileiros, duas imensas figuras estão unidas, lado a lado, sob um pedestal de metal. Luís Carlos Prestes e João Cabral de Melo Neto. Dois que entraram e mudaram a história; dois que tornaram-se ruas, postumamente.

Luís Carlos Prestes

João Cabral de Melo Neto

 

 

 

 

 

 

Ali, sob a sombra das árvores em virtude do transparecer da noite pelos postes públicos, ali, naquele shuttle amarelo em meio a tão distintas culturas, deixei-me transcorrer por aquelas ruas, indo e voltando ao ponto de união. Duas figuras marcantes em minha vida… Lembranças de pura nostalgia…

Pensei nas árvores… Pensei no tempo… E se houvesse um relógio em meu pulso, pensaria nas horas. Mas não; o celular estava dentro da polchete gris, unido à máquina de tirar retratos. Na calada da noite, num Rio de Janeiro mascarado por uma segurança talvez passageira, não era recomendado abri-la. Deixei quieto. Resolvi pensar na vida e em como seriam meus caminhos sem a presença maciça daqueles que tanto me confortam o peito. Tive vontade de chorar quando alusões musicais vieram-me a mente. Fui forte.

Numa outra ocasião, também shuttleiando pelo trajeto ZIV-ALV, uma companhia obscura veio pousar em minha janela. Para aqueles que acompanham o Blog, era ela, a temida e apavorante falena, a velha borboleta velha de meus pesadelos. Ela rodara o ônibus e parara ali, justo ao meu lado, cinzenta e feia, como só as mariposas sabem ser. Parece que apreciava o trajeto, enquanto eu me encolhia disfarçadamente em meio ao tumulto de felizes jamaicanos. Não faria a mínima diferença se aquele veículo estivesse vazio. A simples presença do motorista deixaria-me encabulada. Além disso, o manual do voluntariado dizia que deveríamos nos comportar enquanto de uniforme. Rendia-me. Não poderia escapar.

Durante aqueles quase quarenta minutos, pude notar que, embora de aparência asquerosa, o pequeno gigante animal não me intimidava tanto. Não me atrevi a tocá-lo, ora, isso seria demais. Mas entreguei-me ao prazer do deleite.

Não me enamorei pela tal criatura. Não seria capaz de deixar-me ser pescada novamente. Mas já não havia temor em meus olhos. Receio, de certo. Mas esse também não era assaz.

A Alvorada chegava e com ela o próximo ônibus a ser tomado. Não despedi-me. Não era preciso.

A mariposa acompanhou-me até a porta do Extensão Metrô e se foi, não pelos jardins, mas pelo citadino e nada fantasioso asfalto.

Piriricas da vez

July 8, 2007

Dedicatória:

Primeiramente, ao querido leitor […], que por muito tempo foi o único a ‘descobrir’ esse site e meu primeiro comentarista. Em seguida, aos dois outros companheiros que o sucederam, ajudando, de uma maneira ou de outra, a encher as "páginas" deste pequeno diário. À vocês três, os meus mais novos e sinceros escritos.

[Quem conhece Brás Cubas sabe que três é um número um tanto quanto grande para uma iniciante. Mas para aqueles que acreditam, assim como eu, que escritores nascem após a personificação de cenas cotidianas em palavras machadianas, um pouco de humildade (e muita, muita especulação literária) pode levar a imortalidade].

PRIMA PARTE: PARTE UNO

Caminhávamos tranqüilas naquela tarde de inverno na pequena Fribrugo. Era tarde para meu estômago já acostumado aos hórarios íntegros do almoço. Faltavam apenas três dias para o fim de meu contrato; o trabalho assalariado estava por fim; viria o voluntariado e o estudantil. O sol tímido e inquieto confortáva-nos em auxílio dos grossos casacos, meias e blusas de lã. Um homem elogiara o cachecol de minha tia. E eu, com o pensamento longe, trocando filosofias de mim para mim mesma, continuava o trajeto diário, deixando-me levar pela rua.

Foi nesse momento que sem querer meus olhos bateram sob um cartaz tímido pregado à parede de uma singela loja reveladora de fotos. Um cartaz feito em papel A4, em tons róseos, trazia imagens de pessoas antigas, como aquelas que existem delicadamente pintadas em portas-retratos de Múseos e casas de avós recheadas de doces e travessuras. E por fracionários instântes paralizei o tempo, dedicando-me inteiramente a tal incredulidade.

Ali, sob a forma concreta que as letras provem às coisas abstratas o anúncio informava aos transeuntes vários sobre a venda de fotografias para suas sepulturas. Davam a possibilidade de escolha do formato, cor e, de quebra, a frase para lacrar o sepulcro.

Imóvel, na condição daqueles longos dois segundos, imaginei quem seria capaz de comprar tal mercadoria. As pessoas não desejam a morte, e se a desejam, bem, não se interessariam por tais acessórios. Coloquei as mãos dentro dos bolsos e, para não perder a companhia de minhas colegas de trabalho, apertei o passo rumo ao restaurante da Marta. Mas aquela imagem não me saia da cabeça…

Será que alguém realmente se interessaria por fotos para túmulo?

Compra per il tuo sogno continuo!

Fica a incógnita.

SECONDA PARTE: QUANDO SI VA AL BAGNO

Uma trivialidade comum a qualquer ser humano. Ir ao banheiro.

Alguns não acham graça ou nem têm uma opinião formada sobre o assunto; simplesmente vão, por necessidade. Outros acham uma verdadeira zoação, enquanto outros sentem-se inspirados. Há ainda aqueles que acham curioso. É, eu estou neste último.

Hoje, após dividir uma garrafa de gasosa, senti inevitável vontade de fazer xixi - no mais esdrúxulo léxico popular. No momento entre fechar a porta da pequena cabine e pendurar a bolsa no gancho que esta traz em suas costas, notei algumas anotações em sua superfície, em caligrafias terríveis, palavreado incoerente com a situação (ou, pensando melhor, totalmente coeso e de acordo) e declarações de amor e amizade. E enquanto esfaziava a bexiga, pus-me a pensar qual seria o propósito daquilo tudo. Declarações de amor? O parceiro viria a usar aquele mesmo banheiro, naquela mesma cabina, alguma vez durante toda a sua vida? E a amiga? Realmente iria conferir as confissões ali "talhadas"? Duvido muito.

Foi aí que lembrei-me dos banheiros do departamento de Letras da UFRJ. Uma vez fui lá, pela mesma razão de hoje comparecer aos sanitários do Friburgo Shopping. E espantei-me com o conteúdo dos comentários. Eram realmente fantásticos. Poemas, trovas, desenhos que remontavam os grandes movimentos litero-artísticos e… correção dos erros de concordância e de português! Um aluno se comunicava com o outro (percebia-se pela variação das formas da escrita) e "educadamente" atestava o erro do outro. Achei um máximo. Sai pasmada daquele cômodo público precário de papel higiênico, sabonete e água.

C'era una volta una porta in una grande e publica sala di bagno...

Como divergem os pensamentos cultos dos mortais até nos mais inacreditáveis locais!…

TERZA PARTE: SPIEGAZZIONE

                        Qui non si trova tutto che di fatto esiste

Liberdade poética: Expressão utilizada pelos que se dizem escritores como desculpa para seus erros ou loucuras. (definição da autora)

 

Exemplo:

Fulgaz.

De acordo com a norma culta da língua a palavra que designaria algo rápido, transitório, ligeiro, veloz está registrado, aqui, erroneamente. O correto seria FUGAZ, sem a letra L.

Porém, se analizarmos a estrutura da palavra do ponto de vista da liberdade poética ela pode ser uma composição elíptica. Full em inglês significa cheio, repleto. Gaz poderia representar a palavra Gás americanizada, tendo a letra Z o papel de "substituir" o L perdido. A palavra fulgaz, então, seria algo repleto de gás, de muita energia, e, ao mesmo tempo, ligeiro.

Por isso, em resposta ao meu terceiro leitor que tanto queria uma referência neste blog (se pensares bem, caro mio, esta é a terceira, e a conhecidência numérica foi realmente proposital), aqui está a vossa explicação: Fulgaz, um neologismo sinômimo do clássico Carpe Diem. Sem querer, mexi com os deuses.

(:Ascoltatevi!->Brasil Corrupção (Ana Carolina - albúm: Ana & Jorge ao vivo)

Notívagos

July 2, 2007

Era tarde quando fincamos as astes da bandeira sob o solo daquela praia deserta. O vento soprava entre a areia branca, trazendo-a até nossos ombros descobertos. Era uma linda noite de Santo Antônio.
Para sair das comemorações triviais do nosso folclore, entreguei-me à aventura de conhecer o mar da praia de Itacoatiara com um estranho conhecido naquela tarde. Altura média de 1,80m, traços suaves e olhos de um castanho flamejante harmonizavam-se com a regata marrom, a bermuda malhada gasta e uma auto-estima encantadora. Tinha o caráter definido nas linhas de sua mão direita (embora fosse canhoto) e o estilo de vida tatuado nas costas de atleta principiante. A ternura e a simpatia escancaravam-se no seu jeito de comunicar-se. Seus lábios eram de um vermelho tão intenso, suas palavras doces sinestesias ambulantes, seu olhar, reflexo de lúbrico luar…
Vagávamos na noite de celebração ao santo casamenteiro. Corríamos por entre dunas alvas, deixando as marcas de nossos pés na areia fofa, em várias direções, em círculos, tropeços, entrelaçamentos…
A bandeira que trazíamos naquele antecessor da Aurora matinal era o símbolo de uma insanidade juvenil; um descuido amoroso, desses que só vivenciamos na faixa de nossos 18 anos.
E a brisa que vinha do mar aproximava-nos de um abraço tépido, antevendo as cenas cálidas que não ocorreriam naquela cegueira momentânea do horizonte. Eu, uma simples fluminense. Ele, um nauruano fulgaz.
 
A noite desfez-se com o bocejar do sol. O relógio, recostado à mesa de cabiceira de minha cama, despertava-me de mais um desvario noturno.

(:Ascoltatevi!->Una nouva età (Eros Ramazzotti)