Tom de Azul (Tonalità Azzura) - Cara Fulgaz
Já estava percorrendo o caminho inverso, pisando onde tentava adivinhar que estariam suas pegadas agora não fossem as ondas terem levado-as, quando se animou em ver a mudança de cor que acontecia no céu. Não podia mais desviar o olhar de umas poucas nuvens paradas rentes ao horizonte que se espalhavam com o vento distante deixando rastros de pincel.
A essa hora ele sabia que não estava mais sozinho e podia ouvir um pequeno movimento de pessoas que vinham se exercitar bem cedo pelo calçadão ou trabalhadores noturnos voltando ansiosos para suas casas. Esses outros olhavam o mesmo espetáculo que ele e só imaginavam que aquelas pequenas nuvens não estragariam o dia limpo que vinha se arrastando pelo firmamento. Ele, entretanto, era o único que percebia que a miudeza daqueles borrões brancos devia-se unicamente à distância, e que lá longe, onde aquelas nuvens se espalhavam por quilômetros na distância do mar, existia um reino branco que agora captava tons alaranjados e dourado dos raios de sol que passavam muito acima dele, cruzando as curvas da abóbada celeste.
Quando finalmente o dia tocou a praia e o ouro ficou branco novamente ele percebeu no meio das nuvens uma claridade diferente. Devido à incidência da luz ou o reflexo do azul misturado a claridade das nuvens, havia no meio daquela moldura paradisíaca que estendia os braços através dos céus um tom de azul diferente de todo o resto do firmamento. Um tom que o fascinou pelo seu brilho próprio e matiz único em todo o mundo. Ficou paralisado em um momento de contemplação onde mergulhou todos os seus pensamentos naquele tom.
Era claro, mas ao mesmo tempo profundo, inexplicavelmente beirava um crepúsculo, um azul de tempestade de brilho violeta, mas luminoso como o índigo ou o celeste. Ciano luminoso com azul elétrico, talvez… Não existia qualquer nome para a cor que ele via no céu. Quando as nuvens dispersaram a moldura e a luminosidade se perdeu ele saiu de um transe que nem as ondas brincando em suas canelas haviam quebrado. Olhando a sua volta ficou triste em perceber que só ele tinha reparado naquele canto do céu, e ninguém mais parecia estar despertando como ele daquele lugar tão longínquo.
Em muitos dias que se seguiram ele pegava sua paleta, sentava à beira do mar e pintava telas onde tentava alcançar aquela luz novamente. Aquela cena vitrificada na memória implorava para sair, mas ele nunca conseguia rutilar no óleo sobre a tela aquela imagem. Os inúmeros quadros nascidos das lastimosas tentativas tomaram-lhe todas as paredes da casa, repetindo inúmeras vezes às exatas mesmas nuvens emoldurando um canto do céu onde o azul nunca era o mesmo, e ainda assim nunca era aquele exato azul que vira aquele dia. Passou a viver entre as nuvens. Passou a viver naquele reino dos céus e muito tempo passou.
Ainda ontem meu avô contava essa história novamente, quando ele desistira de pintar sua última tela e a jogara contra o mar, deixando sua esperança escorrer pelos olhos em forma de lágrimas. Ao soltar o fôlego que reservara para gritar ele se curvou derrotado quando uma mão tocou-lhe o ombro. Ao atender o conforto solidário virou-se para encarar a face da mulher que o admirara em segredo nos últimos dias, observando-o pintar na beira da praia com dedicação e atenção que a fascinaram. Olhando em seus olhos meu avô viu o faiscar da tarde e foi tomado pelo encanto inacreditável de um sonho tomando forma bem na sua frente. Os olhos de minha avó eram de um azul com brilho próprio e matiz quase único em todo o mundo.
