Alface
Procurando arquivos antigos, encontrei este ensaio. Achei divertido.
divertitivi!
Pediram-me para escrever sobre o fato de estarmos secando folhas de alface. Em minutos insanos, borrões de nanquim azul surgiram sob o amarelado tom da primeira folha do bloco de anotações da cozinha, revelando-se um absurdo faceto. Após as primeiras críticas, segue o texto.
Críticas:
- “Tá bonito e profundo… Mas não fala sobre alface!”
- “Minha geladeira, vazia?!?” (“Não, mãe, é para torná-lo romântico…”)
- “Não tem paladar?! Mas alface é uma delícia..!”
- “¬¬ Ridículo.”
Texto:
Tudo verde. E água.
Na vastidão de alfaces daquelas bacias, eu e minha irmã revezávamos o tempo que não tínhamos para admira-los, seca-los, enfim, separa-los das gotas d’água que os amavam em profundo silêncio e joga-los por entre as prateleiras na geladeira vazia, onde esperariam tranqüilos e gelados para servirem de almoço a qualquer um de nós.
Como é triste a vida de uma folha de alface! Nasce em pés, não possui braços nem cabeça, orelhas nem tampouco paladar. Traz em suas nervuras e caules o fardo de ser cortada e fazer parte de saladas apetitosas, acompanhada por molhos, tomates, cenouras, pepinos…
Por mais infeliz que seja a vida humana, sempre arranjamos consolação para as pequenas e grandes desventuras.
Jamais seremos verdes.
E, por mais que tentemos, nunca alface.
(:Ascoltatevi!–> Perdoa, meu amor (Marisa Monte)
