Paredão, túnel - Restos da quarta-feira de Cinzas…

February 12, 2008

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         A prova era a seguinte: ficar ao sol e depois encarar uma piscina, barra da Tijuca, Rio de Janeiro, sol escaldante e eu, bem, naqueles dias.
A primeira etapa foi tirada de letra; nada além de algum suor sobre o corpo como obstáculo. Já a segunda…
         Imagine: a piscina, devia ter em torno de 1/12 de lotação, os outros 11/12 era de pura água límpida e fresca. Sentada na beirada da piscina, meus pés refrescavam-se enquanto o resto do corpo curtia o vento propiciado pela sombra; até que um maluco dá um brilhante salto ornamental e, tchan-tchan-than-tchan! Não sobra espaço algum seco. Lá vou eu pegar uma cadeira, dessas de plástico branco, e ficar brincando com a ponta dos pés na tão sonhada água. Eu estava no paredão -  como declarou meu tio, e ali ficaria até que Bial desse seu veredicto. Enquanto isso:
 
“Para que Bia seja afogada, disque 0800 000 00 001;
Para que ela desista e vá tomar sol, disque 0800 000 00 002;
Para que a menstruação dela pare, disque 0800 000 00 003; ou mensagem de texto para […]”
 
Ah, se isso dependesse de uma ligação…
 
 
2                 Observação importante: o texto abaixo está repleto de vocábulos socialmente impróprios, chulos, baixos, reles… A explicação é clara: sem eles, perderia o sentido pretendido. Talvez por estar lendo Marcelo Rubens Paiva, a licença poética de “Feliz Ano Velho” tenha subido-me a cabeça.
 
 
-          Ih, vocês vão ter que descer a escada mesmo. Tá sem luz no prédio inteiro.
Estávamos nos despedindo do pessoal, voltaríamos para Friburgo e nossa carona esperava lá em baixo “desçam rápido que tem até bombeiro aqui em baixo”. Da janela do quarto de minha prima dava para ver o mar e os clarões, prenúncio de muita chuva. Estávamos no 13º andar e descer todos aqueles degraus, com malas e sem luz, seria realmente uma grande empreitada. A solução para o último empecilho estava no bolso; meu Nokia 2112 iluminaria o caminho, ou, pelo menos, parte dele. Desci na frente, mala de minha mãe e irmã no ombro direito, celular na mão esquerda, olhos de águia e morcego. Ilumina aqui, ilumina ali, era um mover de músculos custoso. Chegando no térreo, a luz volta – “Baita sorte!” – e ficáramos presas no corredor de elevadores da ala de serviço, a porta para a entrada principal só abria por dentro. Um tumulto, gente sendo tirada dos elevadores, e eu socando a porta – abram, por favor! Conseguimos sair dali, rumamos para o estacionamento do condomínio – “Cadê o Pitty?; Ah, é aquele carro ali, olha o adesivo; Ué, cadê ele??”  Começava a chuva e nada do motorista aparecer. Ele subira, mas que raios! Pingos cada vez mais consistentes, o céu roxo – nem preto era -  a nossa frente, sair da Barra seria difícil, teríamos de parar e esperar em algum lugar. E eram oito horas da noite.

-          ahhhh, vaahhhmoss… Porra, subi varado aquela porra, peguei a escada

errada. Va’mbora, gente. (É, esse educado era o Pitty, meu primo).

         Vale ressaltar que Pitty é um prato cheio para qualquer escritor. Em sua boca, as palavras chulas ganham um quê de hilário, tornando-se impossível resistir a uma boa gargalhada. Ele é uma figura, “figurássa” ímpar.

         Malas no porta mala, Laptop de um amigão dele, motorista, carona e três no banco de trás. Fomos pelo caminho mais longo – Pitty adorava ver o mar, então passar pela Gávea era certo. Só que não contávamos com um engarrafamento sinistro – último dia de férias para a maioria, fim de carnaval, bloco na Lagoa, e ainda a vitória do Fluminense no clássico Fla-Flu do “Maraca”. Em frente à entrada da Rocinha, ficamos praticamente parados dentro do túnel do Joá.

-          Porra, que merda, cara, túnel – pelo pavor, suspeito que  Pitty sofra

de claustrofobia.

-          Não, o pior são esses buracos aí do lado. Dá um medo, imagina sair um

pivete do nada? Tá maluco… – Minha prima piorava a situação.

Pitty ao telefone (as falas em itálico são possíveis falas do inerlocutor):

-          Túnel do Joá, véi

-          Fazendo o quê?

-          Engarrafado. Merda ao cubo, véi. (Risos)

-          Porra…

-          Fudido nos caralho a quatro, véi. (Risos)

-          E quem é que tá com você, cara?

-          Minhas primas.

-          Deve tá muito divertido aí. Elas não param de rir…

-          Pô, se eu falo um “ah” elas riem… (Risos)

(Só uma pequena demonstração de como nós não podíamos com ele).

         Demora.  Pitty dava uns murros no volante e uns gritos, de vez em quando. Quando dava para andar, ele sentava o pé no acelerador. Foi aí que minha prima, viciada em leis de trânsito, placas e afins falou:

-          A máxima permitida aqui é 70km/h.

-          Aonde que eu não vi?

-          Na placa.

-          Ah… Tenho que começar a prestar atenção nessas coisas… (risos, claro)

Saindo de lá, o trânsito começava a fluir, ligeiramente. Frustrado por não ter

pegado a Linha amarela (“Tinha que escolher logo hoje para passear?”), nosso motorista jurava que em Copacabana tudo seria diferente. E foi, só quando alcançamos a Orla.

         Um pouco de trânsito na Ponte, já eram dez da noite.

-          Alguém ta com fome?

-          A gente pára com você, Pitty, sem problemas.

O MC Donald’s depois da entrada de Niterói estava de portas cerradas. “Resta o

Bob’s”. Mais meia hora na fila – era muita gente para apenas 4 funcionários. Banheiro sem água, cappucicnos, chocolate quente e soda limonada para esperar o tempo passar, o caixa não tinha troco para o pagamento de uma Halls de melancia, R$1,10 (nós só tínhamos notas de R$10,00). O caixa pensou, pensou e disse que poderíamos levar, ficando apenas com a moeda de dez centavos. Não achando justo, esquadrinhei meu porta-níqueis e saquei mais R$0,70 centavos. “É tudo o que tenho”. “Sem problemas, brigado”.

         Seguimos estrada a cima, em direção a serra. Adormeci – só para variar um pouquinho. Em duas horas, estávamos em casa.

-          Valeu Pitty, obrigada pela carona. Ahh, e as aventuras!

-          Que isso, gente, quando precisarem.

Esqueci de mencionar que Pitty é daquelas pessoas que levam uma vida muito

monótona. Nunca nada acontece com ele. Uma vez, quando morava no Rio, estava ele sentado na janela, num ônibus em direção a Copacabana.

-          Aqui os ônibus andam muito coladinhos, você sabe – contava ele dentro do

túnel para mim – e não é que o retrovisor do outro ônibus entrou justo na janela em que eu estava ?! Ah, e outra vez, eu estava saindo do metrô, não é a Estação Siqueira Campos, é aquela outra…

-          Arco Verde?

-          É, isso, Arco Verde. Então, estava eu saindo de lá, tranqüilo, indo para casa.

Não é que um biruta colocou a cabeça para fora, num ônibus passando perto e vomitou em cima de mim? Cheguei em casa puto e falei “Nem comenta, véi, nem comenta…”

Intrigações - parte II

Em meio a obras de arte, um grande questionamento:

                     Buco nell'esposizione

Arte contemporânea ou falta de de obras-primas?

2006. Museu de Arte Contemporânea (MAC), Niterói, Rio de Janeiro.

Parênteses

February 8, 2008

(Em função de férias, a parte II do "intrigações" será publicada posteriormente).

Imagine você, sendo agnóstico. Agora, imagine você sendo um principiante estudante de arquitetura.

                                                             […]

Toda a Igreja - ou templo religioso - gera fascínio em sua estrutura e decoração (para os estudantes desse ramo, é claro). Imagine agora você, tendo a oportunidade de presenciar uma cerimônia qualquer na Candelária. A ocasião, no meu caso, foi uma Missa em Ação de Graças aos Formandos do Curso de Odontologia da Universidade Gama Filho. A imponência da Igreja em toda a sua decoração de mármore, com vitrais alemães, colunas coríntias, pinturas e painéis que contam a história da própria Igreja, deixou que, em meio a cerimônia, turistas adentrassem o local e atirassem flashes para todos os lados. Uma verdadeira emoção turística, como a sensação de existir, ali, um museu em movimento.

Não falei que na folha de rosto do panfleto do Rito religioso vinha a expressão-título "Missa Ecumênica". Até o sermão do padre (que tinha a arte de transformar simples palavras como "formandos" em um interessantíssimo For    -     man     -       do      -      s), ninguém tinha se chateado ou questionado tais palavras. Foi quando o mesmo padre duplicou o sentido de seu sermão: disse que para ser uma cerimônia ecumênica, ali deveria estar um pastor ao seu lado, e que a culpa era dos formandos. Tudo bem, ele parecia estar naqueles dias. Relevamos. Ele reclamou da ordem dos rituais, os formandos não haviam consultado a Igreja. Também relevamos, apesar de já estar sendo criado um clima nada agradável para todos os convidados, que vinham "dar graças ao sucesso obtido por aqueles 48 alunos". Foi quando chegou a hora da comunhão.

"Agora que eu percebi que isto não é uma missa" - disse o padre - "Não há Vinho, hóstia, água…". A culpa, meus senhores, claro, era dos formandos. Esta Igreja histórica não tem padre e, portanto, tudo recai sobre os formandos, aqueles que alugaram o templo e que celebravam a nova etapa de suas vidas - pós e mercado de trabalho.