Intrigações - parte I
O PERIGO EM SE LER BULAS - quando, por fortes dores de cabeça, você acha que precisa do conteúdo delas:
Depois querem dizer que remédio não assusta…
(:Ascoltatevi!-> Morro do Dendé - BOPE funk
O PERIGO EM SE LER BULAS - quando, por fortes dores de cabeça, você acha que precisa do conteúdo delas:
Depois querem dizer que remédio não assusta…
(:Ascoltatevi!-> Morro do Dendé - BOPE funk

Constantemente alojava-se na casa de seu afilhado por motivos médicos. Morava numa cidadela de interior, no final de uma estrada de terra batida, possuindo, como vizinhança uma igrejinha, uma estufa desativada e um casebre com total de nove moradores. Seu conforto resumia-se a uma poltrona herdada da avó e um DVD comprado recentemente em 12 prestações com leves juros, além das idas a capital para imprescindíveis check-ups.
Nunca, em momento algum desde que fora proibida pelo estado alarmante de seus pulmões de tragar seus rotineiros três maços, havia se queixado de tal infortúnio. Mas, com o passar dos anos e da proximidade de seu fim inevitável, deixou-se levar pela vontade adormecida em suas veias.
Tragava seu Malboro antes das tais viagens. Sabia que Valter não suportaria revê-la fumando; ademais suas filhas eram alérgicas. Os últimos dois meses transcorreram sem maiores problemas. Foi no terceiro que não teve jeito.
Tomada pelo ímpeto dos viciados, aproveitou-se da presença reduzida de suas queridas sobrinhas-netas e foi ao banheiro. Com o único fósforo que havia dentro do bolso deu origem a faísca e a fumaça acinzentada - que rapidamente preenchera todo o cômodo. Abriu a janela e ficou a "engolir" o cigarro, porque não há significância mais apropriada para as tragadas velozes que realizava com a maestria de quem tem anos de pratica. Percebeu então que não podia demorar, as meninas estranhariam. Apagou o fumo, atirou-o pela janela e já ia saindo quando percebeu o fósforo usado sob a pia. Sem pensar, levantou a tampa do vaso sanitário, arremessou-o em seu interior e fechou-a, como se tivesse acabado de urinar. Não deu descarga. Saiu com a cara lavada de inocência, deu um sorriso débil para as garotas e retornou a sala.
Foi quando Nádia, a mais velha, levantou-se e foi ao banheiro.
- Bárbara, vem aqui sentir isso!
- Hum, que cheiro… Cigarro, tá forte, dava para sentir do meu quarto..
- Queridas, já vou indo.. – Era Helena, que, pressentindo a
descoberta, resolvera sair da casa instantaneamente.
Não deu nem tempo de segurá-la no elevador. Nádia desmaiara e Bárbara, com acesso de tosse não conseguiu acompanhar os passos da velhinha. Helena descera as escadas. Meia hora depois, a notícia. Um anônimo informava por telefone que uma senhora de 75 anos sofrera um ataque respiratório na rua e não resistira.
O cheiro invadia os outros cômodos devagar e Bárbara, no final, também caíra desacordada.
Às 21:15 da noite, quando Valter e suas esposa retornaram, encontraram a casa apagada e silenciosa. As meninas ainda não haviam acordado. O pai fora correndo buscar ajuda. A mãe rumara ao banheiro com uma tremenda dor de barriga.
O fósforo permanecia dentro do vaso, encoberto por toda aquela bosta. Estava fadado a ser uma prova jamais descoberta.
Foram-se 6 páginas de documento do Word. A noite não prometia ser nada especial, algumas chateações em relação ao programa de inscrições em disciplinas da faculdade. O dia tinha sido carregado de fugas para a fantasia, transformei-me em uma pueril princesa de contos de fadas em amadoras sessões de foto. Como toda boa realidade contemporânea, coloquei as fotografias no Orkut, intitulando o novo álbum de “Fairy Tales”. Em meio à relatividade do tempo, um príncipe com status “Ausente” corteja-me, e aí se vão longos minutos que, com a ajuda de inspiração, excitação, dúvidas e sonhos (por quê não?!) transformam-se em infindas partículas de tempo eternas.
As músicas que tocam randomicamente no Windows Media Player ampararam o clima de romance, sumindo com um tímido e singelo sapatinho de cristal. “A Nova Cinderela” parece sair da tela da TV e fazer umas alterações no último script. É quando as duas badaladas ecoam madrugada a dentro. A carruagem desfaz-se em abóbora e as vestimentas voltam a ser os velhos trapos de dormir que uso.
A tela do computador cerra seu portal para a fantasia. O travesseiro e o lençol recém trocados sugerem novas folhas brancas para o imaginário.
O que fazia naquele princípio de tarde era, como sempre, ler. Parei por acaso, adormecendo entre as páginas enegrecidas pelo tempo e eternizadas pelas palavras do Prisioneiro do Presidente*. Viajei para lugares de cujos nomes não me lembro e recordei-me de sonhos já vivenciados quando minha mãe veio chamar-me para o almoço. Eu estava sentada em minha cama, voltando de uma corriqueira ida ao espelho para encenar uma coisa qualquer que viera à cabeça. Reparei que, ao pronunciar a palavra FELICIDADE, meus olhos transformaram-se, tornando a íris dos famosos olhos castanhos em um tom prata espelhado que, dilatada, refletia toda a imagem mostrada pelo espelho. Voltei à cama, expondo a minha progenitora a limpidez de meus novos olhos. Concomitante ao não entendimento dela - e a falta de um papel qualquer – escrevi em minha perna os versos que a inspiração me trouxe em sua célere passagem pelo quarto (os mesmos de cuja autenticidade não me recordo). Enquanto isso, minha mãe fechava as cortinas ao soar de meu nome por um conluiado dessas minhas viagens oníricas. Ela descortinava a conversa que o jovem insistia em iniciar comigo e eu gritava “Faz um rasgo na cortina para que eu possa vê-lo, mamãe!”. Ela balbuciava algo sobre o almoço e pedia para que eu me apressasse. Rompi a barreira feita no quarto contra a claridade e descobri que aquele menino, de cabelos curtos e alaranjados, queria conversar, sair um pouco e comprar cuecas – desde que voltáramos da última viagem ele estava sem. Respondi que depois do almoço resolveríamos o caso.
A grafite não ajuda minha ineficiência com as palavras. As imagens estão congeladas aqui dentro, refletindo-se no prata daquele olhar virtual. Mamãe continua reclamando de minha demora acrescendo, agora, que a comida já está ficando fria (o que mesmo assim seria um banquete para Skutina…). O livro encontra-se jogado no chão, perdi a página, ponho-o sob a cama e rumo à cozinha. Não vou mais contradizê-la.
* Prisioneiro do Presidente->livro de autoria de Vladmir Skutina
É quinta-feira. Até aqui, nada além de uma oração nominal – e nada além de tédio, a cidade começa a dar sinais de recuperação da população e a rotina friburguense não faz mais que proporcionar algumas crônicas. Acordei cedo, vesti minha malha de Aruba (em tons azul berrante e vermelho), alonguei meus músculos e sai com minha mãe pelo bulevar deste modesto burgo fluminense em direção a uma das 7 maravilhas arquitetônicas da cidade. Cerca de meia-hora de caminhada, meia-hora de corrida, suor à parte – claro. Retornamos a casa. Algumas centenas de abdominais, chá-verde e uma ida a Unimed, trocar o cartão que pela segunda vez acusara erro de leitura (Nada feito, a burocracia do plano de saúde me deixaria sem o mesmo por uns trinta dias). Eu e meu irmão gêmeo acompanhávamos minha mãe ao supermercado e pelo caminho pude constatar que as ruas tornavam-se diferentes. O mundo, visto pela óptica dégradé de meus óculos novos, alegrava-se naquela manhã de rotina. Visto por três nuanças distintas – o escuro, o mais claro e o claríssimo natural (ofuscações solares sem escudo protetor para olhos acostumados ao reflexo e efeito olho-de-tigre* matinais) – o caminho não era tão ruim, ainda que a cópia de sexo invertido continuasse com suas brincadeiras sem graça por todo o percurso.
E desfazer a mágica natalina ao som de Beatles.
Hoje, 06 de janeiro de 2008, a sala voltou a ser só sala. A grande árvore relutou ao ser devolvida à caixa já gasta pelo tempo, os enfeites reluziram tentando hipnotizar-nos com sua beleza áurea.Não adianta. A triste melancolia, mágica inebriante e envolvente do natal apagou-se com o desligar do pisca-pisca. Papai Noel lembrou-nos de sua existência quando, com o tilintar dos 6 pequenos sinos sendo lacrados, seu sistema foi ativado e começou a “tocar” sua sanfona plástica. Todo um sonho foi fechado em papelão silencioso.
Os jantares, daqui para frente, não terão graça em meio a móveis rotineiros, tábuas corridas e pessoas com suas vestes diárias. Os assuntos ficarão monótonos sob a atmosfera pitoresca do trivial.
A Folia de Reis não passa de uma brincadeira ruidosa. E “ruimdosa” àqueles que ainda acreditam no Bom Velhinho.
“There are places I remember all my life…”