Tom de Azul (Tonalità Azzura) - Cara Fulgaz

November 24, 2007

Fulgaz, Cara.

Fazia tanto tempo que não passava a madrugada andando pela areia da praia que tinha esquecido como era ver iluminar-se pela manhã o céu pairando sobre o mar. Passou-lhe um pensamento bobo pela cabeça que o fez sorrir com o canto da boca e chutar de leve a areia. Decidiu ficar até que fosse dia.
 
Já estava percorrendo o caminho inverso, pisando onde tentava adivinhar que estariam suas pegadas agora não fossem as ondas terem levado-as, quando se animou em ver a mudança de cor que acontecia no céu. Não podia mais desviar o olhar de umas poucas nuvens paradas rentes ao horizonte que se espalhavam com o vento distante deixando rastros de pincel.
 
A essa hora ele sabia que não estava mais sozinho e podia ouvir um pequeno movimento de pessoas que vinham se exercitar bem cedo pelo calçadão ou trabalhadores noturnos voltando ansiosos para suas casas. Esses outros olhavam o mesmo espetáculo que ele e só imaginavam que aquelas pequenas nuvens não estragariam o dia limpo que vinha se arrastando pelo firmamento. Ele, entretanto, era o único que percebia que a miudeza daqueles borrões brancos devia-se unicamente à distância, e que lá longe, onde aquelas nuvens se espalhavam por quilômetros na distância do mar, existia um reino branco que agora captava tons alaranjados e dourado dos raios de sol que passavam muito acima dele, cruzando as curvas da abóbada celeste.
 
Quando finalmente o dia tocou a praia e o ouro ficou branco novamente ele percebeu no meio das nuvens uma claridade diferente. Devido à incidência da luz ou o reflexo do azul misturado a claridade das nuvens, havia no meio daquela moldura paradisíaca que estendia os braços através dos céus um tom de azul diferente de todo o resto do firmamento. Um tom que o fascinou pelo seu brilho próprio e matiz único em todo o mundo. Ficou paralisado em um momento de contemplação onde mergulhou todos os seus pensamentos naquele tom.
 
Era claro, mas ao mesmo tempo profundo, inexplicavelmente beirava um crepúsculo, um azul de tempestade de brilho violeta, mas luminoso como o índigo ou o celeste. Ciano luminoso com azul elétrico, talvez… Não existia qualquer nome para a cor que ele via no céu. Quando as nuvens dispersaram a moldura e a luminosidade se perdeu ele saiu de um transe que nem as ondas brincando em suas canelas haviam quebrado. Olhando a sua volta ficou triste em perceber que só ele tinha reparado naquele canto do céu, e ninguém mais parecia estar despertando como ele daquele lugar tão longínquo.
 
Em muitos dias que se seguiram ele pegava sua paleta, sentava à beira do mar e pintava telas onde tentava alcançar aquela luz novamente. Aquela cena vitrificada na memória implorava para sair, mas ele nunca conseguia rutilar no óleo sobre a tela aquela imagem. Os inúmeros quadros nascidos das lastimosas tentativas tomaram-lhe todas as paredes da casa, repetindo inúmeras vezes às exatas mesmas nuvens emoldurando um canto do céu onde o azul nunca era o mesmo, e ainda assim nunca era aquele exato azul que vira aquele dia. Passou a viver entre as nuvens. Passou a viver naquele reino dos céus e muito tempo passou.
 

Ainda ontem meu avô contava essa história novamente, quando ele desistira de pintar sua última tela e a jogara contra o mar, deixando sua esperança escorrer pelos olhos em forma de lágrimas. Ao soltar o fôlego que reservara para gritar ele se curvou derrotado quando uma mão tocou-lhe o ombro. Ao atender o conforto solidário virou-se para encarar a face da mulher que o admirara em segredo nos últimos dias, observando-o pintar na beira da praia com dedicação e atenção que a fascinaram. Olhando em seus olhos meu avô viu o faiscar da tarde e foi tomado pelo encanto inacreditável de um sonho tomando forma bem na sua frente. Os olhos de minha avó eram de um azul com brilho próprio e matiz quase único em todo o mundo.

Extra! Extra!

November 23, 2007

A partir de agora, o S.L.L.L. tem a honra de apresentar novos escritores (amadores ou aspirantes a algo mais profissional), através da categoria "Colunistas Convidados".

O primeiro texto é de autoria de Cara Fulgaz, intitulado Tom de Azul.

Os interessados devem enviar seu e-mail por comentário.

    Boa leitura!!

Quase em insônia

November 20, 2007

"Para que vieste

Na minha janela

Meter o nariz?

Se foi por um verso

Não sou mais poeta

Ando tão feliz!

Se é para uma prosa

Não sou Anchieta

Nem venho de Assis"

 

Não sei quem é o autor, roubei estes versos da página de recados de uma amiga no orkut […]

Deveria estar dormindo. O farei em breve. Por hora, bato ponto.

Tome nota, Cara Fulgaz, aguardando certas palavras…

Buonna notte tutti!!!

Agenda lotada, conclusões mistas

November 18, 2007

Rumos tomam outros rumos. E podem ser os mesmos de antes, não importa.

Além as estrelas são a nossa casa. Casa Pátio […]

 

 

"Xala lalalala, piange con me

 Xala lalalala, piange con me

Domani, forse cambierà, vedrai…"

Resposta às frutas (em tempos remotos, seria)

November 17, 2007

    E me disseste uma vez que calculavas o tempo em  que tuas rugas permaneceriam sobre minha retina. E me perguntavas sem palavras  quantas vezes juraríamos amor eterno em domingos recheados de frutas. Quantos "abriis" seriam necessários  para que um calendário fosse qualquer coisa que um relato atemporal de tanto amor.

   Hoje, pela manhã, tua sombra continua em meu quarto. E nesta mesma manhã teus braços acalentam meu corpo num abraço enquanto desperto.

   Misteriosamente, um gelo trinca num copo não tão distante. E me faz crer que nada é fim. Tudo é luz, tu guias meus passos enquanto vivo (…).


   

 A resposta é o sempre.

La donna (che io ancora non sono riuscita ad essere…)

November 15, 2007

Tem gente que se torna mulher aos dezoito, e outras precocemente denominam-se assim após a tal menarca. Outras só se descobrem inteiramente mulher após o aparecimento das primeiras rugas. Há algum tempo meu nome começou a aparecer na home dos 615 amigos do meu orkut. Hoje contados restam-me 14 dias para que, talvez, a minha percepção de mundo - meu mundo interno bem como as transformações corporais e emocionais - tenha alguns reflexos de um "quê" mais adulto. Já não moro com meus pais, já estudo em outra cidade, faço faculdade e mantenho contatos visando algo profissional. Mas literalmente, eu não sou mulher. Mantenho a chamada criança interna tão viva em mim que esqueço de certas responsabilidades como amadurecimento. Não que não o seja; não. Mas o ar de menininha ainda perdura na face transformada por corretivos, lápis de olho, sombras, batons… Os saltos reforçam minha postura, mas esta sempre teve uma certa elegância…

 

Em vida de atriz, tudo é válido; inclusive se você se define como um ser contraditório.

November 10, 2007

De repente, daquele esdrúxulo modo, ela o encontrara.                                

 

Acordara em cima da hora do expediente, chegaria mais um dia atrasada (droga! esta porra que não desperta!). Levantara com o pé-esquerdo, sempre o fazia em virtude da posição da cama naquela câmara minuciosamente desorganizada. Ajeitara o cabelo (que bagaço, tenho de marcar uma hora no salão…), jogara água no rosto e atirara todas as bujingangas que encontrara sobre a mesa de cabeceira dentro da bolsa (pronto, assim não me esqueço de nada). Pé ante pé, para não acordar a dona do apartameno no qual alugara o quarto dos fundos, passara na sala para pegar um objeto qualquer - talvez um livro para distraí-la no longo percurso que faria de ônibus - e seguira para a cozinha, onde um pão dormido a aguardava, recheado por uma fatia de queijo minas beirando o prazo de validade. Enfim, após escovar os dentes, descera os cinco lances de escada do antigo prédio e rumara para o ponto de ônibus, disposto três quadras após o edifício.

Vestia uma camiseta branca, uma calça de malha escura e sandálias douradas, combinando com a bolsa imensa de mesma cor (última moda, liquidação, mô sorte!). O cabelo liso vinha envolto em um cóque despojado, que assentava perfeitamente com a passada larga e voraz a qual recorria. Seu ônibus estava atrasado, como enformara uma velha senhora sentada no ponto, que fazia crochê e expunha as peças já prontas, tentando içar algum lucro. (ótimo! usarei isso como desculpa!) Ajeitou a camiseta, levou as mãos ao rosto docemente - como que para disfarçar a limpeza do insipiente suor de seu frontispício - e punha-se um pouco a frente do ponto, na tentativa de visualizar melhor a chegada de seu transporte. Nisso, repara em um garoto (deve ter por volta de uns 22, pelos trajes é estudante, com certeza) que posiciona-se mais ou menos ao seu lado (eu, hein?! Hã, este posto é meu, nem venha tirar minha visão…!). Dez minutos. Nada. A orla da praia hipnotizava-a com o som da maresia matinal e por isso, quase não avistara o ônibus. Em questão de segundos esticou o braço direito em sinal de "PARE ESTE ÔNIBUS!" e correu para alcançar a porta, a quantidade de novos passageiros fazia vista de ser grande.

                              

O tal menino postara-se na fila, a sua frente (mas que raios! Chego antes deste moleque e olha só!). Enquanto apanhava as moedas perdidas dentro daquela imensidão de tecidos e objetos emaranhados, o rapaz deu um passo à direita e, como que adivinhando o motivo daquela cara fechada, fez com mãos e lábios movimentos de "pode passar". Ela então abaixou a cabeça e timidamente balbuciou um leve "obrigada".

Passou pela roleta, sentou-se próxima ao trocador, no lado esquerdo, corredor. Restavam apenas dois lugares no veículo, um a sua direita, janela, e um nos fundos. O rapaz sentara-se próximo a si.

Sentiu então brotar algo dentro de si própria, algo irradiante e embriagador. Olhou para o lado, até agora não notara seu rosto e então, perdera a respiração.

Não foi preciso livro, nem outra coisa qualquer para distraí-la naquele percurso. De repente, daquele esdrúxulo modo, ela o encontrara.

CASA COR RIO 2007…

November 9, 2007

Io sopra il grande libro

…Magnifico!

Pensierino del giorno

November 8, 2007

Mal di pancia?

«Agir na cólera é o mesmo que içar vela com tempestade»

(Eurípedes)

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Dando um "rolé'’ por aí, a procura de algo para ilustrar este pensamento. Ao cercare per mal di pancia (que não é cólera na verdade, mas algo parecido) no Google.it, caí em um site que comentava sobre os jornais no cotidiano dos jovens italianos, algo interessante que resumirei aqui com o título de Giornali i Giovani:

http://www.studentistatale.it/portale/content/view/154/255/ 

A università della Statale tem um sério problema com os jornais em suas bibliotecas, principalmente as de Letras e Filosofia. Alunos dizem que a falta do periódico dá-se por não haver um local onde guardá-los, ou por não ser tradição tê-los por ali, ou simplesmente "não podemos permití-los". Um professor deixou escapar pelos corredores a seguinte frase:" Não os quero!"

Nas citadas bibliotecas há grande acervo de outros materias de estudo e informação, como "Literatura e Jornalismo", "Dicionário de Jornalismo", "Jornalismo: como é, como funciona", "Entrevista sobre o jornal Italiano"… Ou seja, uma série de recursos sobre algo correlacionado aos que ainda marcam faltas na lista de presença italiana. O presidente da Faculdade de Letras e Filosofia diz não ser dever da universidade fornecer atualidades. A diretora da biblioteca diz que dada a carência de investimentos, os materiais tem de ser duráveis, como livros, não sendo possível, então, a aquisição de jornais como fonte das tais atualidades.

Uma indagação surge em meio a formação dessa matéria: enquanto que para os jornalistas a cultura acadêmica é chata, para os acadêmicos os jornais são cotidianos. Então, qual a contribuição de um escândalo no futebol, uma crônica sobre um roubo ou as notícias sobre o último que deixou a Ilha dos Famosos a alguém que deseja tornar-se um filósofo romântico? De acordo com Paolo Di Stefano, todos os escândalos da atualidade são uma contribuição ao amadurecimento da consciência civil e crítica, restando também ao filosofo romântico dispor dessa consciência crítica. «Até o especialista mais sofisticado deve saber da existência de um certo Adriano Celentano, que diz certas coisas aos italianos, senão, que tipo de interação poderá ter o especialista com  os estudiosos do futuro que são os alunos de hoje?»

A maioria dos professores vêem-se perplexos sobre o interesse dos jovens de hoje com o jornal. A maioria dos italianos estão a par das notícias, porém estas lhes chegam pela TV. Stefano ainda diz: «Os periódicos constroem uma cultura muito espetacular, tendo a culpa de não comunicar-se com os jovens. Estes últimos acabam referindo revistas especializadas[…]»

Professores acham que os jornais poderiam ser um meio de atirar os jovens às bibliotecas. Mas se não os lêem, como constituir essa aproximação?

 

 

São duas e trinta e três da manhã (sono le venti sete meno tre della matina).

Vado a letto. Buona notte ed anche buona mattina

Quando o fim é curto

November 6, 2007

.. proprio..

.. e mio...

 

 

 

 

 

Susto. Medo. Raiva. Reconhecimento… Nem sempre batalhas perdidas são guerras vencidas. Bem, aqui estamos.. de volta, para alegria da grande maioria de meus leitores (1 já é maioria, se não for a totalidade).

Às vezes, as coisas não podem tomar mesmo outros rumos.

Então, lá vamos nós outra vez. “Keep swiming“, como nos diria a esquecido Dorie de “Finding Nemo“. Afinal, o que seria das coisas se estas parassem? Bastava um empurrãozinho, pronto, S.L.L.L. está de volta.

Benvenuti tutti di nuovo!!

CHIUSO FINE A…

November 5, 2007

                                   Arivederci!

 

                                          Per motivi di vita, saremmo chiusi finché non si sà.

In cambiamento. Grazie.