Piriricas da vez

July 8, 2007

Dedicatória:

Primeiramente, ao querido leitor […], que por muito tempo foi o único a ‘descobrir’ esse site e meu primeiro comentarista. Em seguida, aos dois outros companheiros que o sucederam, ajudando, de uma maneira ou de outra, a encher as "páginas" deste pequeno diário. À vocês três, os meus mais novos e sinceros escritos.

[Quem conhece Brás Cubas sabe que três é um número um tanto quanto grande para uma iniciante. Mas para aqueles que acreditam, assim como eu, que escritores nascem após a personificação de cenas cotidianas em palavras machadianas, um pouco de humildade (e muita, muita especulação literária) pode levar a imortalidade].

PRIMA PARTE: PARTE UNO

Caminhávamos tranqüilas naquela tarde de inverno na pequena Fribrugo. Era tarde para meu estômago já acostumado aos hórarios íntegros do almoço. Faltavam apenas três dias para o fim de meu contrato; o trabalho assalariado estava por fim; viria o voluntariado e o estudantil. O sol tímido e inquieto confortáva-nos em auxílio dos grossos casacos, meias e blusas de lã. Um homem elogiara o cachecol de minha tia. E eu, com o pensamento longe, trocando filosofias de mim para mim mesma, continuava o trajeto diário, deixando-me levar pela rua.

Foi nesse momento que sem querer meus olhos bateram sob um cartaz tímido pregado à parede de uma singela loja reveladora de fotos. Um cartaz feito em papel A4, em tons róseos, trazia imagens de pessoas antigas, como aquelas que existem delicadamente pintadas em portas-retratos de Múseos e casas de avós recheadas de doces e travessuras. E por fracionários instântes paralizei o tempo, dedicando-me inteiramente a tal incredulidade.

Ali, sob a forma concreta que as letras provem às coisas abstratas o anúncio informava aos transeuntes vários sobre a venda de fotografias para suas sepulturas. Davam a possibilidade de escolha do formato, cor e, de quebra, a frase para lacrar o sepulcro.

Imóvel, na condição daqueles longos dois segundos, imaginei quem seria capaz de comprar tal mercadoria. As pessoas não desejam a morte, e se a desejam, bem, não se interessariam por tais acessórios. Coloquei as mãos dentro dos bolsos e, para não perder a companhia de minhas colegas de trabalho, apertei o passo rumo ao restaurante da Marta. Mas aquela imagem não me saia da cabeça…

Será que alguém realmente se interessaria por fotos para túmulo?

Compra per il tuo sogno continuo!

Fica a incógnita.

SECONDA PARTE: QUANDO SI VA AL BAGNO

Uma trivialidade comum a qualquer ser humano. Ir ao banheiro.

Alguns não acham graça ou nem têm uma opinião formada sobre o assunto; simplesmente vão, por necessidade. Outros acham uma verdadeira zoação, enquanto outros sentem-se inspirados. Há ainda aqueles que acham curioso. É, eu estou neste último.

Hoje, após dividir uma garrafa de gasosa, senti inevitável vontade de fazer xixi - no mais esdrúxulo léxico popular. No momento entre fechar a porta da pequena cabine e pendurar a bolsa no gancho que esta traz em suas costas, notei algumas anotações em sua superfície, em caligrafias terríveis, palavreado incoerente com a situação (ou, pensando melhor, totalmente coeso e de acordo) e declarações de amor e amizade. E enquanto esfaziava a bexiga, pus-me a pensar qual seria o propósito daquilo tudo. Declarações de amor? O parceiro viria a usar aquele mesmo banheiro, naquela mesma cabina, alguma vez durante toda a sua vida? E a amiga? Realmente iria conferir as confissões ali "talhadas"? Duvido muito.

Foi aí que lembrei-me dos banheiros do departamento de Letras da UFRJ. Uma vez fui lá, pela mesma razão de hoje comparecer aos sanitários do Friburgo Shopping. E espantei-me com o conteúdo dos comentários. Eram realmente fantásticos. Poemas, trovas, desenhos que remontavam os grandes movimentos litero-artísticos e… correção dos erros de concordância e de português! Um aluno se comunicava com o outro (percebia-se pela variação das formas da escrita) e "educadamente" atestava o erro do outro. Achei um máximo. Sai pasmada daquele cômodo público precário de papel higiênico, sabonete e água.

C'era una volta una porta in una grande e publica sala di bagno...

Como divergem os pensamentos cultos dos mortais até nos mais inacreditáveis locais!…

TERZA PARTE: SPIEGAZZIONE

                        Qui non si trova tutto che di fatto esiste

Liberdade poética: Expressão utilizada pelos que se dizem escritores como desculpa para seus erros ou loucuras. (definição da autora)

 

Exemplo:

Fulgaz.

De acordo com a norma culta da língua a palavra que designaria algo rápido, transitório, ligeiro, veloz está registrado, aqui, erroneamente. O correto seria FUGAZ, sem a letra L.

Porém, se analizarmos a estrutura da palavra do ponto de vista da liberdade poética ela pode ser uma composição elíptica. Full em inglês significa cheio, repleto. Gaz poderia representar a palavra Gás americanizada, tendo a letra Z o papel de "substituir" o L perdido. A palavra fulgaz, então, seria algo repleto de gás, de muita energia, e, ao mesmo tempo, ligeiro.

Por isso, em resposta ao meu terceiro leitor que tanto queria uma referência neste blog (se pensares bem, caro mio, esta é a terceira, e a conhecidência numérica foi realmente proposital), aqui está a vossa explicação: Fulgaz, um neologismo sinômimo do clássico Carpe Diem. Sem querer, mexi com os deuses.

(:Ascoltatevi!->Brasil Corrupção (Ana Carolina - albúm: Ana & Jorge ao vivo)

2 Comments »

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  1. São passos trôpegos por esse novo mundo seu, mas não me tome por desatento. Se enxergo entrelinhas também respeito suas posições e deixo-as no plano para qual foram designadas, inclusive as três referências. Se me faço de bobo tenho meus motivos. Será? De que importa agora? Pra que encucar? Carpe Diem! Ainda mais quando é um dia de novo post aqui. Adoro te conhecer um pouquinho mais, mesmo que sejas diferente de mim.

    O que esqueceres de escrever ficará na biblioteca do Sonhar, e eventualmente poderei consultar, mesmo que, ao acordar, não se lembre. Que Lucien me ajude.

    Beijos e mais beijos. ;)

    Comment by Cara Fulgaz — July 9, 2007 @ 4:24 am

  2. Não sei se estou entre os três. Talvez esse blog não tenha “os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco.” Ou três!
    Não importa, Grande Núbia. A qualidade disso aqui é imensurável! Sério mesmo! Muito bom!

    Te adoro!
    Beijão! =***

    Comment by Renato — July 14, 2007 @ 2:45 am

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